Reflexões

Resistência e ambivalência na mudança

Os conceitos de resistência e ambivalência perante a mudança aproximam-se e, por vezes, sobrepõem-se. A resistência refere-se, de forma geral, aos movimentos que interferem com o processo de mudança; a ambivalência implica uma oscilação entre aproximação e afastamento, entre o desejo de que algo se transforme e a necessidade de conservar aquilo que é conhecido.

Esta tensão pode ser pensada não apenas como um obstáculo, mas como expressão de forças distintas que coexistem no próprio self. Por um lado, existe a procura de mudança; por outro, uma necessidade de continuidade e coerência interna. Mesmo quando determinada forma de funcionamento produz sofrimento, pode continuar a cumprir uma função importante na organização psíquica da pessoa.

É por isso que a resistência dificilmente se compreende se for olhada apenas como algo a ultrapassar.

Antes de tentar modificar aquilo que leva alguém a agir de determinada forma, importa compreender que lugar esse funcionamento ocupa na sua organização interna: o que permite evitar, preservar ou manter; de que modo se articula com a história e com a identidade; e o que poderá estar em risco quando se começa a pensar numa alternativa.

A mudança pode, assim, implicar mais do que reconhecer racionalmente que determinado padrão é disfuncional. Pode colocar em causa formas de organização que, mesmo produzindo sofrimento, são familiares e conferem alguma previsibilidade. Nesse sentido, mudar contém também uma dimensão de perda: alguma coisa do modo conhecido de estar consigo e com os outros terá de ser abandonada para que outra possibilidade possa surgir.

É neste ponto que a ambivalência ganha particular relevância no processo psicoterapêutico.

O desejo de mudança pode coexistir com movimentos que procuram adiá-la, contrariá-la ou neutralizá-la. Essa aparente contradição não significa necessariamente ausência de motivação. Pode antes traduzir a dificuldade de suportar aquilo que a mudança mobiliza internamente.

Esta questão aproxima-se da ideia de experiência emocional corretiva: não apenas compreender intelectualmente a origem de um determinado padrão, mas poder experienciá-lo numa relação em que o desenlace não reproduza necessariamente aquilo que foi vivido anteriormente.

A relação terapêutica pode, nesse sentido, constituir um espaço onde formas habituais de relação, defesa ou afastamento se tornam presentes e podem ser pensadas no momento em que acontecem. Não se trata apenas de chegar a uma explicação sobre o problema, mas de criar condições para que uma experiência diferente possa ser vivida e integrada.

Talvez por isso a resistência não seja apenas aquilo que impede a mudança. Pode também indicar precisamente onde a mudança toca em algo suficientemente importante para que uma parte da pessoa precise de se proteger dela.

Referências

Bromberg, P. M. (1998). Resistance, Object Usage, and Human Relatedness. In Standing in the Spaces: Essays on Clinical Process, Trauma, and Dissociation.

Engle, D. E., & Arkowitz, H. (2006). Ambivalence in Psychotherapy: Facilitating Readiness to Change.

Reflexões