Reflexões

Rupturas no processo terapêutico

O estabelecimento de uma relação, qualquer que seja a sua natureza, faz-se de movimentos de proximidade e distanciamento. A relação entre paciente e terapeuta não é diferente nesse sentido: também ela é atravessada por desencontros, mal-entendidos e rupturas, mais ou menos evidentes.

Esses momentos podem precipitar o afastamento ou mesmo o abandono da terapia, mas podem também tornar particularmente visíveis formas de relação que, noutros contextos, permanecem menos acessíveis à compreensão. A ruptura pode, assim, constituir não apenas uma dificuldade do processo terapêutico, mas um momento privilegiado de contacto com o padrão relacional do paciente.

A aliança terapêutica não é, portanto, uma relação suave, perfeita ou permanentemente harmoniosa. É uma relação dinâmica, onde existem inevitavelmente momentos de desencontro e, quando tal é possível, de reparação.

Safran e Kraus distinguem dois grandes movimentos de ruptura da aliança terapêutica: o afastamento e o confronto. Nas rupturas de afastamento, o conflito tende a permanecer menos explícito: pode surgir através do silêncio, de respostas breves, de mudanças de assunto ou de uma excessiva complacência perante o terapeuta. Nas rupturas de confronto, a insatisfação, a zanga ou o ressentimento aparecem de forma mais direta na relação.

Apesar das diferenças, ambos os movimentos podem revelar dificuldades em tornar presentes determinados afetos na relação. Medo, crítica internalizada, necessidade, dependência, zanga ou vulnerabilidade podem adquirir uma intensidade particular quando deixam de ser apenas falados e passam a ser vividos no próprio encontro terapêutico.

É justamente aí que a atenção à ruptura se torna relevante.

Não se trata apenas de restaurar uma relação que deixou momentaneamente de funcionar, nem de regressar a uma suposta harmonia anterior. A possibilidade de reconhecer e pensar aquilo que aconteceu pode permitir que o próprio modo de estar em relação se torne objeto de experiência e reflexão.

Para tal, é necessária uma capacidade do terapeuta para permanecer perante emoções dolorosas ou agressivas sem as evitar, retaliar ou procurar resolvê-las demasiado depressa. Essa capacidade pode criar condições para que a ruptura adquira um desenlace diferente.

A reparação não apaga o que aconteceu. Introduz antes a possibilidade de que uma falha, um desencontro ou uma experiência de desilusão possam ser reconhecidos dentro da própria relação e integrados nela.

Nesse sentido, determinados momentos de ruptura podem condensar de forma particularmente intensa aquilo que está em jogo no processo terapêutico: formas habituais de aproximação, afastamento, proteção e confronto deixam de ser apenas narradas e passam a acontecer na relação.

É nessa experiência — e na possibilidade de a pensar enquanto acontece — que pode surgir algo novo.

Referência

Safran, J. & Kraus, J. (2014). Alliance Ruptures, Impasses, and Enactments: A Relational Perspective. Psychotherapy, 51(3), 381–387.

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