Reflexões

Sonata de Outono: entre proximidade e separação

O cinema — e a arte em geral — pode abrir uma janela para mundos íntimos que talvez permaneçam menos visíveis quando estamos demasiado próximos da nossa própria experiência.

Em Sonata de Outono, de Ingmar Bergman, é precisamente um desses mundos que se torna acessível. No centro está a relação entre Charlotte, uma pianista bem-sucedida, e Eva, a filha adulta, numa relação marcada por desencontro, desejo de proximidade e dificuldade de separação.

Na relação entre mãe e filha existe uma dimensão particular de identificação. A mãe pode constituir um primeiro modelo a partir do qual se vão organizando formas de pensar o feminino, o corpo, o valor pessoal, a relação com os outros e consigo própria. Mas identificar-se implica também, a determinada altura, poder diferenciar-se.

É justamente essa diferenciação que parece encontrar pouco espaço entre Charlotte e Eva.

Charlotte ocupa uma posição relacional fortemente dependente da validação do outro, dos seus feitos e da sua imagem. Eva cresce perante um olhar materno que parece reconhecê-la sobretudo quando corresponde àquilo que a mãe valoriza: beleza, talento, sucesso, possibilidade de a confirmar narcisicamente. As tentativas de diferenciação tornam-se, assim, difíceis de sustentar.

O problema não é apenas não ser vista. É a dificuldade em constituir-se como alguém separado perante um olhar do qual continua a depender.

Eva descreve uma infância em que imitava a mãe e tinha dificuldade em reconhecer como legítimo aquilo que era seu. O recurso à adaptação torna-se compreensível: quando existir de forma autónoma ameaça a possibilidade de ligação, aproximar-se do que o outro deseja pode ser uma forma de preservar a relação.

Há aqui algo próximo da ideia de falso self: uma organização em torno da adaptação ao outro que protege a ligação, mas pode fazê-lo à custa da espontaneidade e da experiência de continuidade consigo própria.

O confronto entre as duas mulheres expõe então uma relação paradoxal. Separar-se é difícil, mas também nunca parece ter existido uma proximidade suficientemente segura a partir da qual essa separação pudesse ocorrer. O desejo de proximidade mantém-se precisamente no lugar onde a experiência de encontro permaneceu incompleta.

Bergman não nos oferece uma explicação simples para Charlotte, e talvez seja importante não a construir por ele. O filme deixa entrever que também ela transporta uma história e uma organização interna próprias. Isso desloca a questão de uma procura por culpados para algo mais complexo: aquilo que não pôde ser pensado ou elaborado numa geração pode reaparecer, transformado, nas relações da geração seguinte.

É nesse sentido que a transmissão entre gerações se torna particularmente inquietante. Não se transmite apenas aquilo que é dito ou conscientemente ensinado. Transmitem-se também modos de relação, expectativas, silêncios, formas de procurar amor e formas de se proteger dele.

Talvez uma das possibilidades de um processo psicoterapêutico seja precisamente tornar pensável aquilo que, durante muito tempo, foi apenas repetido.

Não necessariamente para cortar com aquilo que nos precede, mas para que a relação com essa história possa deixar de determinar, de forma tão inevitável, aquilo que vem a seguir.

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